sábado, 7 de outubro de 2017

A rota da propina de Lobão



Documento obtido por ISTOÉ indica o caminho do dinheiro até o então ministro de Minas e Energia, Edison Lobão. Impressiona a naturalidade com que ele e sua turma interferiram e se beneficiaram de contratos milionários entre multinacionais e a Petrobras

Tábata Viapiana
Alvo de inquéritos na Lava Jato, o senador Edison Lobão (PMDB-MA) se notabilizou em Brasília por ser um profundo conhecedor dos atalhos do poder – e, principalmente, das benesses que a intimidade com o poder proporciona. Natural, portanto, – embora obviamente condenável -, que Lobão se servisse de tão estratégico, por assim dizer, “notório saber” em benefício pessoal. O que não é natural é o desassombro com que ele e sua turma participaram de uma trama para desviar recursos da Petrobras. É o que mostra documento em poder da Polícia Federal, obtido com exclusividade pela ISTOÉ. Ele traça de maneira nítida a trilha da propina até desaguar em Lobão, então ministro de Minas e Energia.
O fluxograma da propina indica ao menos cinco pagamentos ao senador do PMDB. Murilo Barbosa Sobrinho, funcionário da Petrobras apontado como representante dos interesses de Lobão na estatal, era quem recebia os recursos em nome do parlamentar. Há dois repasses realizados diretamente para Lobão, num total de US$ 41 mil. Os outros três pagamentos, de US$ 410 mil, aparecem divididos com outros beneficiários, como o ex-deputado Cândido Vaccarezza e Márcio Aché, ex-funcionário da Petrobras, mas não está especificado quanto foi destinado para cada um deles. Para a Polícia Federal, o apoio político de Lobão era considerado de fundamental importância para garantir contratos entre Sargeant Marine, uma empresa norte-americana de fornecimento de asfalto, e a Petrobras. Um dos acertos nos quais ele se envolveu pessoalmente rendeu à Marine US$ 180 milhões. O esquema é o mesmo que levou Vaccarezza à cadeia. A chancela de Lobão constituiu uma espécie de “seguro” para que não houvesse problemas em negócios futuros com a Petrobras.
Segundo a Polícia Federal, o esquema beneficiou ao menos dez pessoas. No documento também constam pagamentos para o advogado Tiago Cedraz, filho do ministro do Tribunal de Contas da União, Aroldo Cedraz, e alvo da 45ª fase da Lava Jato. Com seu sócio, Sérgio Tourinho Dantas, Tiago recebeu US$ 90,9 mil. O ex-diretor de abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto Costa, também levou uma bolada: US$ 270 mil em depósitos fracionados, de valores pequenos, uma estratégia para disfarçar o rastreamento do dinheiro pelas autoridades. Delator da Lava Jato, foi Paulo Roberto Costa quem revelou as articulações para derrubar a empresa que fornecia asfalto para a estatal e transferir o contrato para a Sargeant Marine.
O ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa também integrou o esquema: levou US$ 270 mil.
O rastreamento do dinheiro pela PF revelou que os repasses eram feitos, principalmente, no exterior por meio de contas na Suíça. O dinheiro saía da Sargeant Marine e de outras empresas do mesmo grupo e ia para empresas offshores de Jorge Luz e do filho dele, Bruno. Eram os dois que distribuíam a propina aos destinatários finais. Alguns valores foram entregues em espécie. De setembro de 2010 a julho de 2012, a empresa norte-americana fez doze pagamentos, num total de US$ 2,1 milhões em propina. Para justificar os repasses, a Sargeant Marine firmou um contrato fictício com a Totaltec Power Solutions, empresa de fachada de Jorge Luz. O contrato foi assinado em junho de 2010 e previa pagamentos de até US$ 2,3 milhões por um estudo sobre o mercado brasileiro de asfalto. ISTOÉ teve acesso ao contrato frio, hoje em poder da PF, assinado por Luiz Eduardo Andrade, representante da Sargeant Marine no Brasil, outro alvo da operação Abate.
COLABORADOR O operador Jorge Luz tem ajudado a PF. Foi ele que entregou a papelada que envolve o senador Lobão e sua turma (Crédito:Aílton de Freitas/Agência O Globo)

Um das grandes dificuldades da Polícia Federal na Lava Jato é identificar os recursos ilícitos que saem de grandes empresas, passam por operadores financeiros, e chegam aos destinatários finais – especialmente políticos e agentes públicos. Isso porque, as ferramentas usadas para os repasses ilícitos estão cada vez mais sofisticadas e incluem, por exemplo, contas no exterior, empresas offshores e entregas em espécie. Mapear exatamente por onde passou a propina é um dos pontos mais trabalhosos nas investigações da Lava Jato. Porém, quando isso é feito com sucesso, é possível comprovar, sem sombra de dúvidas, o envolvimento dos investigados em atos ilegais – conforme acontece agora.
À luz desse quadro, o documento entregue à PF pelo lobista Jorge Luz ilumina o cenário e colabora de maneira decisiva com o desbaratamento do esquema descoberto pela operação Abate. Jorge, que atua de maneira ilícita na Petrobras desde os anos 80, tem colaborado com a Lava Jato. Candidato a delator, ele já apresentou uma série documentos e prestou depoimentos aos investigadores que envolveram até o presidente Lula. Agora, ele ajuda a elucidar pagamentos de propina em que Lobão, o “senador dos atalhos”, exibiu o tamanho de seus dentes afiados

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