quarta-feira, 29 de novembro de 2017

[Artigo] No Brasil, não há preconceito!(?)




Por Robson Paz
Recentemente, a atriz Taís Araújo fez um discurso tão emocionante quanto verdadeiro acerca da desigualdade no país. Foi criticada, ridicularizada nas redes sociais com comentários e memes racistas. Alguns compartilhados pelo presidente da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), Laerte Rimoli. Atitude reprovada e alvo de protestos. O mais eloquente feito pelo ator Pedro Cardoso, ao vivo, na TV Brasil.
Antes, vídeo divulgado nas redes mostrou o jornalista William Waack em atitude racista. Agora, a filha de Bruno Gagliasso e Giovanna Ewbank foi vítima de ofensas raciais. Dayane Alcântara Couto de Andrade, do Espírito Santo, foi identificada pela polícia como autora dos vídeos de injúria racial contra Titi, de 4 anos.
Infelizmente, são dezenas de milhares de Titis discriminadas pelo país. Mas, no Brasil não tem preconceito!
A maioria da população carcerária do Brasil é negra. São 61,6% de pretos e pardos, segundo Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (Infopen).
A diferença de salário entre brancos e negros/pardos é assustadora. Segundo Pesquisa Mensal de Emprego do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), trabalhadores negros ganharam, em média, 59,2% do rendimento dos brancos, no ano passado. Os negros recebem menos que os brancos mesmo com idêntica escolaridade.
Estudo da Oxfam mostra que negros e brancos terão rendas equivalentes apenas em 2089. Mais de 200 anos depois da promulgação da Lei Áurea. Bobagem! No Brasil, não tem preconceito! Isso deve ser apenas uma infeliz coincidência.
Até dados teoricamente positivos mostram a desigualdade no país. Em 2005, apenas 5,5% dos jovens pretos ou pardos frequentavam faculdade. Em 2015, 12,8% estavam matriculados. No comparativo, o número equivale a menos da metade dos jovens brancos com a mesma oportunidade, que eram 26,5% em 2015 e 17,8% em 2005.
A dificuldade de acesso dos estudantes negros ao diploma universitário reflete o atraso escolar. Na idade que deveriam estar na faculdade, 53,2% dos negros estão cursando nível fundamental ou médio, ante 29,1% dos brancos. Mas, há quem diga que falar sobre preconceito no Brasil é vitimismo.
Pesquisa Pnad (Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílio) Contínua divulgada na sexta-feira, 24, pelo IBGE mostra que a população que se declara preta no Brasil aumentou em 15%, nos últimos quatro anos. O resultado é revelador: apenas 8,2% dos entrevistados se declararam da raça negra. Por que tão baixo índice? Relatos acima podem dar uma pista da resposta.
Não por acaso, somente este ano foi inaugurada a primeira cozinha comunitária numa comunidade quilombola no Brasil, em Alcântara; inédita também foi a homenagem ao líder do movimento Balaiada, Negro Cosme, cujo nome ornamenta logradouro público. No governo Flávio Dino foi criado sistema de cotas para negros nos concursos públicos do Estado e lançados editais de chamada pública para políticas afirmativas e de valorização dos negros.
Recentemente, num salão de cabeleireiro num bairro pobre de São Luís uma criança negra encheu o pincel de talco e espalhou por sobre o rosto. Os presentes sorriram. Deve ter sido apenas uma brincadeira de criança. Afinal, no Brasil não há preconceito…
Radialista, jornalista. Secretário adjunto de Comunicação Social e diretor-geral da Nova 1290 Timbira AM

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Os comentários são de propriedade de seus respectivos autores. Não somos responsáveis pelo seu conteúdo.